10/09/2020

Sapos

Quando era criança, eu tinha medo de sapo. Tinha medo porque simplesmente me botaram medo. Na escolinha, falaram que eles eram feios, asquerosos, perigosos. Alguns realmente pareciam tudo isso. Ficava longe, ainda mais eu que morava numa região afastada da grande cidade, cheio de mato e lotado de sapos. Medo de um sapo aparecer debaixo do tanque, na lagoa, dentro de algum sapato, atrás de mim, no meio da plantação de alface...

Já me aconteceu de eu mexer nas coisas do meu pai, mover uma caixa de madeira cheinha de verduras e aparecer o bendito por ali. Quando não era um, eram dois. Sempre correndo deles. Pior que vampiro fugindo do alho. Até que um dia, aconteceu o pior: tinha acabado de chover e fui vestir minhas botinhas de chuva pra brincar na terra... Eis que não verifiquei, coloquei e... Adivinha? Pois é... Tinha um sapo enorme ali dentro. Tomei um susto, saí correndo, não quis mais saber de brincar. Tinha um bicho feio, asqueroso e perigoso na minha bota. E eu encostei nele! ARGH!


Passou alguns dias depois dessa situação lastimável. Não queria mais brincar, até que um dia choveu muito novamente e, nela, apareciam pequenos sapinhos. Muitos sapinhos. Por todos os cantos. Lembro que meus pais foram pegando esses sapinhos e tentaram me mostrar que eles eram bonitinhos. Por incrível que pareça, achei bonitinho de fato. Fui pegando na mão, ainda com receio, e eles eram... Aveludados? Muito delicados, sensíveis... Aquilo não me parecia perigoso. Peguei um sapinho, eu olhei pra ele, ele pra mim... Aqueles olhinhos tão miúdos e brilhantes estavam ali, como se falassem que "não somos perigosos, apenas choveu e nós aparecemos", as patinhas tão pequenas... Fiquei com medo de machucá-los. Aos poucos, toda vez que chovia, lá estava eu... Indo "caçar sapo" (literalmente falando)... Dos pequenos sapos, fui não tendo mais medo dos maiores. Pegava até na mão, sem medo. Tirava de um lugar perigoso, deixava no mato... Até levar pra casa já levei. E levei uma bronca, claro. Afinal, o lugar deles não é no chão frio da minha casa. Aprendi a ter jeito com eles.

Lembro quando veio uma caixa do Japão na minha casa. Minha mãe tinha trazido da casa do meu avô e como sempre, vários presentes da minha avó que estava por lá naquela época (detalhe: nós não nos conhecíamos ainda). Qual não foi a minha surpresa que tinha uma pelúcia de sapo no meio? Não larguei mais. A partir daquele momento, eu amava sapos. Tinha coisas temáticas de sapos, pelúcia de sapos, roupas com sapos, itens de decoração com sapos.


É meio engraçado pensar que tinha uma visão preconceituosa e a partir de comentários na escola, das pessoas. Nunca tinha visto um, como posso saber se são perigosos ou não? Fico pensando o quão distorcido é a nossa visão que é influenciado a partir de comentários de terceiros. Deste sapo não engulo mais.

6 comentários

  1. Oiê Moh!

    Desde que vi você comentando sobre gostar de sapos, me perguntava qual seria a sua história por trás disso e aqui estou, lendo ela.
    É bem bonitinha a sua visão sobre isso, e o amadurecimento também. Pois as vezes, a gente só tem medo de ter medo, e quando temos "alguém" para ser o foco disso meio que complica, e só a gente que decide como mudar isso.

    Eu ainda não gosto de sapos, mas dadas as pererecas que já apareceram aqui em casa em época de chuva, espero mudar esse meu lado cri-cri. Sério, já foram umas três vezes e eu nem faço ideia de como elas chegaram até aqui!

    Beijos, Snow!

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  2. Acho que o ciclo todo que você enfrentou decora bem o possível amadurecimento em vários aspectos da vida. Eu sorri igual uma boba quando li que você ganhou uma pelúcia de sapinho!
    Eu acho que nunca vi um sapo de verdade, porque sou muito garota da cidade grande. Não sei se teria medo ou nojo deles, mas acho que com certeza já comi algum por aí (estudei na China e sinceramente, não tenho a menor ideia das carnes que eu comi kkkkk)

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  3. Que relato mais fofo, Moh <3 E ainda com uma reflexão importantíssima no final. A gente acaba se deixando levar pelo que outras pessoas falam, e perdermos a chance de tirar nossas próprias conclusões. Que bom que você aprendeu essa lição cedo (embora acho que na época o foco era outro, né? Hahaha)
    Beijos e sapinhos <3

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  4. Hello Moh!

    Que coisa mais fofa foi esse texto! Eu fiquei com do na parte que vc descobre o sapo na bota. Mas que incrível como tudo se resolveu e hoje vc goste de sapos. Eu nunca vi um de perto, mas ja me mandaram fotos de alguns, e realmente tem alguns que são feiinhos e outros ate q bonitinhos. Mas não chego perto de jeito nenhum kkkk

    bjinhos

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  5. Oi Moh, fia!

    Esse texto foi uma delicinha de ler, de verdade. Sua conclusão, então? Perfeita, zero defeitos. Remonta algo que eu digo o tempo inteiro e que considero o motto da minha vida: compreender as coisas com minhas próprias percepções. É óbvio, isso não funciona cem por cento para tudo, mas ao menos é um pensamento que nos serve de norte, não é meshmo.

    Um xero <3

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  6. Eu acho sapos legais. Meus gatos já pegaram e os trouxeram para dentro de casa, até morcego '-'.

    Com amor, Lena Jack Black (blog)

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